Artigo: Preocupação excessiva com a opinião alheia

opinião alheia

O ser humano é uma espécie naturalmente social, e por mais que algumas pessoas não queriam admitir, precisamos das interações para sermos efetivamente felizes. Com isso, em algumas situações é muito importante ficar atento a comportamentos e palavras que possam prejudicar os diversos relacionamentos que são desenvolvidos em uma vida saudável. Porém, a preocupação excessiva com a opinião alheia pode levar à transtornos psicológicos que aprisionam o indivíduo em um círculo de ações, sentimentos limitantes e muito sofrimento. Existem várias consequências e sintomas comportamentais que evidenciam quando alguém preocupa-se excessivamente como a opinião alheia, podendo levar o indivíduo a fobias sociais.

Basicamente existem dois grupos principais de comportamentos a partir de uma preocupação excessiva com a opinião alheia:

  1. Aqueles que fazem muito para manter uma imagem ou status dentro de um contexto social, sempre tentando agradar a todos, e com isso sentem-se constantemente esgotados e preocupados em manter o padrão;
  2. Aqueles que desistem de manter o padrão e preferem se isolar, para evitar qualquer tipo de julgamento alheio, ou comparação, e com isso limitam as suas possibilidades de desenvolvimento pessoal, profissional e nos relacionamentos;

Nos dois casos existe uma grande dificuldade do indivíduo em dizer não aos outros e com isso o sofrimento torna-se inevitável.  Especialmente porque a mente do indivíduo está predominantemente no futuro, focada na preocupação crônica sobre o que podem achar ou dizer sobre ele, e essa preocupação excessiva inevitavelmente o levará a sentir-se inseguro, com vergonha, ressentido ou culpado.

Consequências sociais

Os prejuízos no contexto social também são extremamente relevantes, podendo prejudicar o desenvolvimento profissional e os relacionamentos mais íntimos. É muito comum que pessoas com esse tipo de carência tomem decisões importantes em sua vida baseadas na opinião dos outros ou pressão social, como a escolha da profissão, com quem casar, a hora de casar, quando ter filhos, quando se aposentar e muitas outras. Ou seja, são indivíduos que dão poder para os outros decidirem sua vida, sem que sequer percebam isso na maioria das vezes. Dependendo da personalidade, pode buscar o isolamento por sentir-se incapaz de atender aos seus próprios padrões e projeções da expectativa alheia.

Consequências para a saúde

Todo esse turbilhão de emoções negativas e frustrações também pode conduzir a estados patológicos de estresse, ansiedade, síndrome do pânico, depressão, fobia social ou até doenças físicas. Além disso, dependendo da personalidade, o excesso de ansiedade baseada na expectativa alheia pode também levar o indivíduo a buscar alívio em hábitos de vida nocivos, como comer demais, distúrbios sexuais, fumar ou consumo exagerado de álcool e drogas.

Porque isso acontece?

A base dessa preocupação excessiva é a necessidade de aprovação, que se trata de uma necessidade social básica humana. De acordo com a teoria da Hierarquia de Necessidades, criada por Abraham Maslow, um dos grandes nomes da psicologia, o ser humano apresenta basicamente cinco tipos de necessidades, que são representadas em sua conhecida “Pirâmide de Maslow”:piramide maslow

  1. Necessidades fisiológicas – ar, água, comida e sexo;
  2. Necessidades de segurança e estabilidade;
  3. Necessidades de amor e pertencimento;
  4. Necessidades de estima;
  5. Necessidade de autorrealização.

Como é possível perceber, existem necessidades sociais importantes para a psique de qualquer pessoa, como a necessidade por atenção, por reconhecimento, por aceitação e por identidade. Esse desejo é expressado na busca por relações interessantes, cônjuge, filhos, uma profissão, reputação, além da necessidade de sentir-se pertencente a algum grupo social, como uma família, uma equipe, uma religião, um time ou um grupo profissional.

Essas necessidades se apresentam logo nos primeiros anos de vida e muito cedo uma criança demonstra a necessidade de sentir-se amada, de ter atenção, de sentir-se inclusa e reconhecida dentro do ambiente familiar. Porém, quando de alguma maneira existe um sentimento de falta em uma dessas necessidades sociais, a psique pode desenvolver uma carência excessiva, que levará a criança e o futuro adulto a se comportar de forma descompensada para obter aquilo que sente carência.

Por exemplo, uma criança muito esforçada na escola, que obtêm ótimos resultados, sem ter o devido reconhecimento ou incentivo dos pais, pode desenvolver uma carência por reconhecimento e na idade adulta agir de forma exagerada e descompensada para obter esse reconhecimento das pessoas que se relaciona. Isso acontece porque na idade infantil a mente está em desenvolvimento e o sentimento de falta costuma ser extremamente maximizado, assim como todas as experiências com grande carga emocional.

Da mesma maneira ocorre com as pessoas que preocupam-se demais com a opinião alheia. Em algum momento de suas vidas houve uma grande falta em sentir-se incluso, aceito ou reconhecido dentro de um contexto social, provavelmente durante a infância, e com isso é impelido buscar desesperadamente por isso, ou a rejeitar totalmente as relações sociais de forma mais ampla. Depende da personalidade desenvolvida.

Como já mencionado, estar atento ao contexto social e prezar pela qualidade das relações é importante, o problema está no exagero de expectativa ou preocupação em relação ao outro, que como já vimos, pode ser patológico. Muitas vezes o ambiente social que esse indivíduo está inserido lhe provê toda a atenção, inclusão e reconhecimento que precisa, mas devido ao fato de ter desenvolvido um comportamento patológico na busca por esses elementos, baseado na falta, sempre sente-se insuficiente, deslocado, ou exagera na preocupação e nas atitudes relacionadas a este contexto.

Como resolver?

O mais irônico é que tudo trata-se de uma projeção da mente do próprio indivíduo, porque na maioria das vezes as pessoas não estão lhe julgando como quer acreditar. Por exemplo, existe um conceito na psicologia chamado “efeito holofote”, no qual o indivíduo acredita que está sento minuciosamente analisado ou julgado, mas de fato isso não está ocorrendo, apenas na sua imaginação. Outro conceito parecido é a “ilusão de transparência”, quando o indivíduo acredita firmemente que os demais estão percebendo os seus estados emocionais internos, mas a verdade é que na maioria das vezes as pessoas estão mais focadas em si do que nos outros.

O primeiro passo para resolver essa situação, recuperando o poder de decisão e liberdade de comportamento, é tomar consciência da própria condição. Só quando se é capaz de perceber e admitir o excesso de importância à opinião dos outros é que pode-se alcançar a transformação de comportamento, que dependendo do indivíduo é resolvido facilmente.

Porém, nos casos mais profundos, pode ser necessária uma imersão na própria história e uma ressignificação desse sentimento de falta, dessa carência que está “programada” a nível inconsciente e provavelmente encoberta por camadas de mágoas, raivas e crenças limitantes. Neste caso, será fundamental contar com a ajuda de um especialista que poderá conduzi-lo pelo processo de autoconhecimento e cura.

A base do processo funciona da seguinte maneira:

  • Conscientizar-se sobre carências patológicas ou crenças limitantes que levam a esse comportamento e ressignificá-las: Tratando-se de um caso mais profundo, trabalho de análise, autoconhecimento, perdão e ressignificação da ecologia interna;
  • Aprender a evitar pensamentos fantasiosos sobre a expectativa das outras pessoas: Conseguir direcionar o próprio fluxo de pensamentos é uma fantástica habilidade que normalmente precisa ser desenvolvida, e pode ser obtida com a prática da meditação Mindfulness;
  • Aprender a receber críticas e perceber que alguém não concorda com você: É impossível agradar a todos e inevitavelmente em algum momento da vida alguém criticará ou discordará de você. Neste caso é fundamental aprender a receber críticas e oposições de forma madura e centrada. Normalmente, por trás de uma preocupação excessiva com a opinião alheia está uma enorme vaidade. Liberte-se!
  • Aprenda a dizer não quando o pedido é desconfortável para você: A vida moderna exige participação em diversos círculos sociais, incluindo os modernos meios digitais, e em neste caso será impossível dar atenção ou atender as expectativas de todas essas pessoas. E tentar fazer isso será extremamente estressante e patológico. Por isso, é importante aprender a priorizar quais são aqueles relacionamentos cuja sua atenção é realmente fundamental, e dizer não para as outras solicitações, sem ficar mal com isso;
  • Aprender a não se importar sobre o que um determinado grupo social pode estar falando sobre você: É muito comum que ao longo da vida você se sinta atraído por integrar-se em algum grupo social, e se esforce para isso. Porém, também é comum que olhando mais de perto, esse novo ambiente social não atenda às suas expectativas e você às deles. Neste caso, é importante não se culpar por não ter se adaptado ao grupo, por que no fundo pode ter sido melhor para você, e também não se importar com os comentários que alguns membros desse grupo podem dizer. Pessoas são diferentes e discordam constantemente. Nesses casos, aprenda a não se importar.

Conclusão

A conclusão desse texto será em forma de parábola:

Um camponês idoso estava precisando de dinheiro imediato e resolveu vender o seu jovem e forte burro na feira da cidade. Como a previsão era retornar caminhando, resolveu chamar o seu filho caçula de 12 anos, para acompanhá-lo. Montaram os dois no animal e seguiram viagem.

Passando por umas barracas de escoteiros, escutaram os comentários críticos: “Que falta de compaixão… como é que pode, duas pessoas em cima deste pobre animal!”.

Incomodado pelo comentário o camponês resolve então que o menino desceria, e ele permaneceu montado para prosseguirem na estrada.

Um pouco mais a frente havia uma lagoa e algumas senhoras estavam lavando roupas. Quando viram a cena, puseram-se a criticar: “Que absurdo! Essa criança é muito jovem para essa dura caminhada. Poderia deixá-la em cima do animal.”

Constrangidos com o ocorrido, pai e filho resolvem trocaram as posições, ou seja, o menino montou e o idoso desceu.

Depois de um bom trecho percorrido eles encontram algumas jovens sentadas na calçada de frente a algumas casas. Assim que viram o idoso e o menino externaram imediatamente o seu espanto: “Que menino preguiçoso! Enquanto este idoso senhor caminha, ele fica descansado sobre o animal. Tenha vergonha!”

O jovem ficou bem desconcertado com o comentário e resolveu descer do animal. Desta vez o idoso permaneceu como estava e ambos resolveram caminhar, puxando o burro.

Já acreditavam ter encontrado o formato mais correto quando quase 1 quilometro depois passaram em frente a um bar. Alguns homens que ali estavam começaram a dar gargalhadas, fazendo chacota da cena: “São mesmo uns idiotas! Ficam andando a pé, enquanto puxam um animal tão jovem e forte!”

Pai e filho olharam um para o outro, como que tentando encontrar a maneira correta de agir. Então, finalmente ambos pegaram o burro e o carregaram nas costas!

Texto: Júlio César de Castro Ferreira

2 Comments

  1. Ana Paula Leeuwenberg

    Excelente texto e a conclusão foi ainda melhor!
    Realmente agimos muitas vezes de acordo com o que os outros acham certo ou errado, e acabamos sequer reconhecendo nossa própria opinião diante de um a determinada situação ou acontecimento. Reconhecer por que e quando temos atitudes assim, podem nos ajudar a restabelecer nossas próprias crenças e confiar mais na nossa opinião pessoal. Eu sou uma dessas pessoas que se vê sempre agradando a todos e que tem uma dificuldade imensa de dizer NÃO.
    Agradeço pelo texto e com certeza irei refletir bastante em busca de uma cura para este problema.

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