Saúde mental em sala de aula e as soft skills

Existe um assunto que vem sendo amplamente divulgado e discutido nos últimos anos, especialmente dentro do setor educacional, que é o alto índice de doenças mentais entre professores e alunos, sendo as mais comuns o estresse, as crises de ansiedade, ataques de pânico, síndrome de Bornaut e até a depressão.

Em junho de 2019, o canal SBT publicou uma matéria informando que diariamente dezenas de professores da rede pública de São Paulo/SP pedem afastamento do cargo por razões de saúde mental. A reportagem revelou que, em média, 45 docentes da rede estadual, formada por 190 mil profissionais, pedem licença médica todos os dias, tendo como causas principais as crises de ansiedade e depressão, chegando ao total de 57.250 pedidos entre janeiro de 2016 e maio de 2019.  

No mesmo ano, o jornal Agora São Paulo revelou que em 2018 houve o afastamento de 22 mil professores e demais servidores da Secretaria Municipal da Educação por transtornos mentais, o que corresponde a uma média de 62 licenças por dia, em uma rede com cerca de 62.860 educadores.

Esses transtornos mentais inevitavelmente culminam em outras doenças, a partir do princípio da psicossomática, como enxaquecas, insônia, pressão alta, alergias, problemas cardíacos, entre outras.

Entre junho e julho de 2018, a Associação Nova Escola realizou uma pesquisa com mais de cinco mil educadores, identificando que houve afastamentos por questões de saúde em 66% dos participantes.

Além dos professores, os alunos também apresentam números alarmantes neste campo da saúde mental. Em fevereiro de 2017, a Revista Saúde, da editora Abril, divulgou o relatório do Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), evidenciando que os alunos brasileiros estão entre os mais estressados nas atividades educacionais, representando 56% dos entrevistados. Além disso, o alto índice de ansiedade na realização de avaliações, coloca os alunos brasileiros no segundo lugar do ranking. No mês de abril do mesmo ano, o jornal O Globo publicou uma matéria com o título “Estudantes brasileiros estão entre os mais ansiosos do mundo”.

Mais recentemente, em abril de 2019, a Nova Escola divulgou o alerta emitido Ppelo Pisa, por meio do relatório “Bem-Estar dos Estudantes”, informando que 80% dos alunos brasileiros, na faixa de 15 anos, sentem-se extremamente ansiosos nas avaliações educacionais e 56% sentem-se muito tensos ao estudar. 

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Além disso, apesar da falta de dados mais recentes, foi divulgado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) um estudo indicando o aumento de 24% na taxa de suicídios entre adolescentes no período entre 2006 e 2015.

Problemas com a saúde mental também estão presentes no ensino superior. De acordo com pesquisas recentes, a ansiedade, a depressão e até o suicídio, afetam cada vez mais os universitários. A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) realizou em 2018 uma nova edição da pesquisa sobre o perfil socioeconômico dos estudantes de graduação nas universidades federais, tendo a participação de 424 mil entrevistados. Os números chamam atenção para um aumento significativo nos casos de crises de ansiedade, depressão, acompanhamento psiquiátrico ou psicológico e pensamentos suicidas.

Muitos são os fatores externos atribuídos como causas desses números alarmantes sobre transtornos mentais entre professores e alunos, como desvalorização da profissão, condições inadequadas de infraestrutura, longas jornadas de trabalho, cobranças de um bom desempenho educacional, medo sobre a futura profissão, alta competitividade, entre outras.

Todas elas realmente existem e precisam ser consideradas. Porém, na maioria das vezes, o principal fator é interno, ou seja, o real problema está na maneira que o indivíduo está lidando com todos os desafios, conflitos e até injustiças que surgem pelo caminho. Especialmente se considerarmos que em uma sociedade cada vez mais competitiva e exigente em relação a alta performance de seus profissionais, sempre existirá um novo “fator externo negativo”, cuja superação dependerá predominantemente do desenvolvimento das competências socioemocionais, como a inteligência emocional (IE), resiliência e automotivação, por exemplo. Por isso, este é um assunto cada vez mais presente no meio educacional: o desenvolvimento das competências socioemocionais, ou soft skills, para o perfil do mercado profissional que se configura.

Atualmente, existe um amplo movimento mundial que visa inserir as competências socioemocionais no sistema educacional, já aderido por diversos países, sobretudo os considerados de primeiro mundo. Isso porque há um claro entendimento por parte dos especialistas que a viabilidade de um desenvolvimento humano integral precisa contemplar essas competências não cognitivas. No Brasil, este movimento se expande rapidamente, especialmente por intermédio da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que estabeleceu a integração das competências socioemocionais nos currículos escolares até 2020.

Mas qual a relação das competências socioemocionais com a saúde mental em sala de aula? Se essas competências estão relacionadas às habilidades como autoconhecimento emocional, gestão emocional, autoestima, boa comunicação, empatia, resiliência, inteligência interpessoal, dentre outras, muitos desses conflitos mentais ou emocionais serão prevenidos e reduzidos, tanto para professores, quanto para os alunos. Ou seja, com as competências socioemocionais sendo amplamente trabalhadas no sistema educacional, nos níveis iniciais ou no nível superior, será possível uma expressiva redução nesses índices negativos, por intermédio da formação de indivíduos mais preparados emocionalmente para os inevitáveis desafios da vida profissional e até da vida pessoal.

Pessoas com soft skills bem desenvolvidas, são mais equilibradas, motivadas, saudáveis e principalmente, mais felizes. 

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